As matracas que dão o ritmo

Assim como os outros estilos, surgiu na região da zona rural da Grande Ilha – o que lhe atribuiu o nome de sotaque “da ilha”

Boi de Ribamar
Boi de Ribamar - Ascom Secma
11/06/2025

Com o período junino chegando, todo maranhense se põe em ritmo de festa e deixa, mesmo que rapidamente, um espaço na sua rotina árdua para retornar à infância, quando ainda descobria as belezas que rondam a cultura popular do Maranhão. Enquanto os jovens aprendiam os primeiros passos das coreografias de Bumba Meu Boi, os mais velhos esquentavam o corpo com tiquira e conhaque; nas ruas, as mãos que acendiam fogueiras, para afinar os tambores, trocavam apertos com outras, que produziam artesanato; e as fotografias em família, dessa época, ainda estão muito bem guardadas nos álbuns e nas molduras penduradas nas paredes. O coração pulsa como matraca, para animar a vida e iluminar as noites. O povo maranhense, cada um à sua maneira, se emociona e fica feliz por ter nascido em uma terra tão rica, repleta de lendas, tradições, ritmos e sotaques.

Sobre o bumba meu boi (BMB), está mais do que claro que essa longeva brincadeira e prática popular é sinônimo de sucesso entre gente da terra e de fora dela. Apesar de ser uma só manifestação, existem diversas formas rítmicas para apresentar o BMB do Maranhão, que falam sobre suas origens e modificações que ocorreram com o passar dos anos. A esses ritmos, damos o nome de sotaques, isto é, são as muitas formas de participar da brincadeira. São eles: Matraca, Zabumba, Orquestra, Baixada e Costa de Mão.

Desta vez, o foco será o estilo mais popular do estado: o sotaque de matraca.

O bater das matracas

A história é incerta e pouco se sabe sobre as origens factuais do sotaque, mas muitos compreendem que, assim como os outros estilos, surgiu na região da zona rural da Grande Ilha – o que lhe atribuiu o nome de sotaque “da ilha” –, com a maioria dos seus tocadores e brincantes sendo descendentes de escravos. Isso nos mostra como, também, o bumba meu boi, além de ser uma manifestação cultural de extrema relevância, pode servir para promover reflexões socioculturais, étnicas e pôr em destaque religião e espiritualidade por meio de suas letras.

“Nossa Senhora Mãe Aparecida

Não me deixe morrer de medo

Pelo o que pode acontecer

Eu vivo cheio de esperanças

Diante de Negras Profecias

Mesmo assim quero cantar ‘prá’ guarnecer”.

O trecho acima foi retirado da música “Negras Profecias”, composição de João Chiador, cantador de BMB que passou 27 anos à frente do Batalhão de São José de Ribamar. “É uma grande história, os maiores sucessos de Chiador foram cantados através do Boi de Ribamar. Foi um grande ícone e até hoje o legado dele continua no Batalhão como um dos maiores cantadores de bumba meu boi da história do Maranhão”, explica o atual presidente do Boi, Jailson Paixão.

De acordo com ele, o Boi de Ribamar surgiu por meio de amigos que brincavam em outros batalhões e perceberam que, até aquele momento, a região não dispunha e nenhum boi para chamar de seu. Ele diz: “O Ribamar foi fundado em 14 de março de 1976, esse ano tem 49 anos, ano que vem faz 50 anos de história. Foi fundado através de um grupo de amigos do colégio Paulo Ramos, em São José de Ribamar. Eles se reuniram e formaram o boi de matraca, que é o sotaque da ilha. Cada batalhão tem sua diferença, cada um tem uma cadência diferenciada, tem um modo de bater diferente”.

Jailson também conta que seu carinho pela cultura do boi veio por influência de sua avó, que participava bastante com frequência do boi; “passava antigamente três, quatro dias acompanhando o boi direto e eu fui vendo aquilo ali, foi uma coisa que foi me motivando, vendo o carinho pelo batalhão, vendo a grande força cultural que tinha, já que eu sou nascido e criado em São José de Ribamar, aquilo foi adentrando no nosso sangue, e vem da minha avó o carinho pelo batalhão, ser morador ali da comunidade, participar e não deixar a brincadeira cair”, afirma Paixão.

Com cerca de 160 brincantes, o boi de Ribamar é formado por índios, caboclo de penas, caboclo de fita, pai Francisco, cantadores, entre outros. Já o instrumental é composto por matraqueiro, pandeirista, caboclo de fita, pandeireiro, onceiro. Em média, as apresentações reúnem, em média, 1.000 a 2.000 pessoas nas ruas.

 

Por Júlio C. (Ascom - SECMA)